segunda-feira, 14 de abril de 2014

Perfis

1.
Era mais um dia de silêncio.
2.
Acordar era sempre uma dor. Sair da cama pela manhã era sempre algo que incomodava os meus sentidos, mas eu continuava a acordar. Talvez ficasse melhor com o tempo, talvez ficasse melhor com o fim dos tempos.

Eu andava pensando muito no fim dos tempos, e em como isso pode ser, para além de qualquer prognóstico pessimista, o começo de uma nova era sem mim. E se essa era vai começar sem mim, presumo que será boa.

Eu já tinha levantado, vestido as roupas de trabalho e estava prestes a sair de casa. Caneca de café preto na mão, cara de quem não gosta do que vê, nunca… eu estava pronto, eu sempre estive pronto. E ainda assim, no caminho para o trabalho, eu não me sentia pronto de forma alguma.
Eu costumava sonhar que estava em fase de teste. Anos de ficção científica e você acaba acreditando que esse é um pré mundo. Que um dia você vai ser selecionado para a próxima fase, sem sofrimento e sem tristeza. Um lugar novo onde a sua vida vai começar para valer… Mas de novo, se somos nós indo pra lá, como não vai existir sofrimento e tristeza? Dá para deixar de sentir assim, de uma hora para outra? É o que a maioria dos meus colegas busca, não é? Tem sempre aquele romântico incorrigível que não quer mais sofrer de amor, o cara da síndrome do pânico, a menina com TOC, o guri do final da rua que reclama da solidão…

Tanta gente que só quer parar de sentir e não consegue. Eu sou otimista. Acredito quer um dia vou aprender a sentir, aprender a lidar comigo mesmo para poder viver bem. Mas eu já tô com 24, e todo mundo morre com 30.

3.
Não é porque a vida é uma merda que ela precisa ser disfuncional. É por isso que eu funciono, funciono muito bem, não sou do tipo que é funcionária do mês, nem daquele tipo de pessoa que tem muitos amigos e consegue dar conta de todos eles… Na verdade eu sou outra coisa, sou uma pessoa que alcançou a média e está extremamente contente com isso. Existe um conforto maravilhoso em não se destacar em nada. Não existe o peso da derrota esmagadora. Não existe o peso da vitória eterna e insuportável.
Mas existe um problema com a média… normalmente eu não reclamo, mas existem momentos em que eu queria mais, acho que é um erro da minha programação.l

Alguma coisa dentro de mim pede sempre por mais, e eu não sei o que é. Mas isso não precisa ser ruim, ninguém por aqui sabe o que quer, a gente acha que sabe quando compra sorvete de chocolate ou cereja, pequenos luxos, mas não sabemos de verdade.

O que me incomoda é que eu me acho especial por não saber o que quero, eu não sou especial em nada, mas me sinto especial quando hesito. Tenho medo de ficar boa demais nisso.

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