1.
Era mais um dia de silêncio.
2.
Acordar era sempre uma dor. Sair da cama pela manhã era sempre algo que incomodava os meus sentidos, mas eu continuava a acordar. Talvez ficasse melhor com o tempo, talvez ficasse melhor com o fim dos tempos.
Eu andava pensando muito no fim dos tempos, e em como isso pode ser, para além de qualquer prognóstico pessimista, o começo de uma nova era sem mim. E se essa era vai começar sem mim, presumo que será boa.
Eu já tinha levantado, vestido as roupas de trabalho e estava prestes a sair de casa. Caneca de café preto na mão, cara de quem não gosta do que vê, nunca… eu estava pronto, eu sempre estive pronto. E ainda assim, no caminho para o trabalho, eu não me sentia pronto de forma alguma.
Eu costumava sonhar que estava em fase de teste. Anos de ficção científica e você acaba acreditando que esse é um pré mundo. Que um dia você vai ser selecionado para a próxima fase, sem sofrimento e sem tristeza. Um lugar novo onde a sua vida vai começar para valer… Mas de novo, se somos nós indo pra lá, como não vai existir sofrimento e tristeza? Dá para deixar de sentir assim, de uma hora para outra? É o que a maioria dos meus colegas busca, não é? Tem sempre aquele romântico incorrigível que não quer mais sofrer de amor, o cara da síndrome do pânico, a menina com TOC, o guri do final da rua que reclama da solidão…
Tanta gente que só quer parar de sentir e não consegue. Eu sou otimista. Acredito quer um dia vou aprender a sentir, aprender a lidar comigo mesmo para poder viver bem. Mas eu já tô com 24, e todo mundo morre com 30.
3.
Não é porque a vida é uma merda que ela precisa ser disfuncional. É por isso que eu funciono, funciono muito bem, não sou do tipo que é funcionária do mês, nem daquele tipo de pessoa que tem muitos amigos e consegue dar conta de todos eles… Na verdade eu sou outra coisa, sou uma pessoa que alcançou a média e está extremamente contente com isso. Existe um conforto maravilhoso em não se destacar em nada. Não existe o peso da derrota esmagadora. Não existe o peso da vitória eterna e insuportável.
Mas existe um problema com a média… normalmente eu não reclamo, mas existem momentos em que eu queria mais, acho que é um erro da minha programação.l
Alguma coisa dentro de mim pede sempre por mais, e eu não sei o que é. Mas isso não precisa ser ruim, ninguém por aqui sabe o que quer, a gente acha que sabe quando compra sorvete de chocolate ou cereja, pequenos luxos, mas não sabemos de verdade.
O que me incomoda é que eu me acho especial por não saber o que quero, eu não sou especial em nada, mas me sinto especial quando hesito. Tenho medo de ficar boa demais nisso.
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